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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Coluna Gente Fronteiriça - Câmbio flutuante

Por Jorge Passos

Para quem é um fronteiriço genuíno, as oscilações cambiais da moeda não surpreendem de maneira nenhuma. Lá pelos anos 60 do século passado morávamos no Rio Branco, onde meu pai tinha loja, a Casa Azpiroz. Naquela época, não se falava em dólar, o que interessava mesmo era a cotação do peso em relação ao cruzeiro. Mas o Tio Ruivo, homem da campanha e que tinha vindo morar conosco, pois já não estava em condição de ficar sozinho no seu rancho no Telho, era mais resistente às modernidades. Lembro que era muito arisco para o banho mensal, o que, apesar dos seus protestos, minha mãe havia estipulado como mínimo. Volta e meia me pedia para comprar gasolina para se afumentar as pernas. Eu ia na venda do Seu Libório, que ficava ali perto do Liceo velho, onde hoje tem uns quiosques de lanches. “Essa gasolina é santo remédio para a coceira” dizia ele, fazendo o palheiro. Quando o assunto era dinheiro, o termo utilizado por meu velho tio avô ainda era réis. Tantos réis pra cá, tantos contos de réis pra lá! “Isso é um disparate! Sabes quanto está uma caixa de goiabada no Oscar Amaro? 200 réis!”

Minha mãe prezava os horários. Almoço ao meio dia, sempre. Depois, à uma hora, todos nós ficávamos em silencio absoluto pois o pai começava a escutar o informativo da Rádio Carve de Montevidéu cuja parte mais importante era a cotação do peso. Nós sabíamos que disso dependia o movimento da loja. Apesar da nossa ignorância em relação às variáveis econômicas, sabíamos que da palavra “movimento” e suas alterações de direção, para cima ou para baixo, dependiam nossos maiores desejos de ser presenteados com um brinquedo novo da Casa Cosmos, do Seu Eurídio, ali na esquina da XV de Novembro com a Carlos Barbosa em Jaguarão. Meu sonho de consumo, depois de ter visto o Ben Hur, era uma quadriga de cavalos com penachos, igual à do Charlton Eston, protagonista e herói do filme de romanos. Era de madeira torneada, ainda não tinha surgido o brinquedo de matéria plástica e eram todos caríssimos. “Quando as coisas melhorarem” tu ganhas, dizia meu pai.

Nos tempos de crise, quando já não vinham os compradores de Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande e até os de Jaguarão escasseavam, nas mesas de exposição das mercadorias da loja, já não se viam cobertores Aurora, blusas Burma ou lanas del Uruguay. Ali, luziam flamantes, abóboras, espigas de milho verde, mugangos, melancias e melões, produtos trazidos da chácara do Telho. E assim era, até a próxima flutuação do câmbio, peso caindo, movimento subindo, quando voltavam as viagens a Montevidéu para buscar novidades e lançamentos. Vida de fronteiriço.


Edição de 07/10/2015 Ano VI nº 233









terça-feira, 8 de setembro de 2015

Coluna Gente Fronteiriça - O Triângulo do Patrimônio Histórico Brasileiro

Estampa de Camisetas  - Patrimônio presente na arte 
Por Jorge Passos

A literatura tem o poder de nos transportar a cidades como se andássemos por suas ruas. Elas são verdadeiras personagens em muitas narrativas. Como não associar Buenos Aires com Jorge Luiz Borges, Dublin com James Joyce, o Rio de Janeiro “velho” com Machado de Assis? Sem a mesma expressão ou fama desses autores, apesar de não menos importante no Cânone literário brasileiro, Josué Montello no seu romance histórico, Os Tambores de São Luís , retrata em pormenores a antiga capital do Maranhão na caminhada de Damião, o negro escravo que vira professor de Latim e ferrenho abolicionista. O romance traça um panorama cultural da sociedade escravocrata maranhense do século XIX com centenas de personagens extraídos da vida real. Trata-se de uma leitura daquelas que apaixona e não se pode parar.

Posso afirmar que esse livro foi um dos principais motivadores de minha viagem a São Luís, além do fascínio e admiração que tenho pelo nordeste, o clima sempre prazeroso e agradável, uma promoção de passagens áreas irrecusável e alguns dias de férias neste atípico morno mês de agosto nestes pagos do sul. Atravessando o Brasil em algumas horas, com saída em Porto Alegre à tardinha, alguma espera em Guarulhos, chegamos em São Luís na madrugada do dia seguinte. 

O turismo histórico é uma das principais fontes de recurso da capital maranhense. Vi muitos turistas europeus e um detalhe, na sua maioria jovens. Italianos, belgas, holandeses, franceses. Também chineses e coreanos. Quando visitávamos a Cafua , prisão de escravos, encontramos um casal , ele argentino , ela belga e o meu espanhol fronteiriço auxiliou bastante o guia encarregado do passeio pelo local. São Luís também é porta para um turismo mais ligado à natureza. A 260 Km dali ( multiplicado por dezenas de quebra-molas que encompridam a jornada) está situada a cidade de Barreirinhas ao lado dos lençóis Maranhenses. É um passeio para quem gosta de aventura e exige bastante preparo físico. Trilha em 4x4 corcoveando por 18 quilômetros de areia no meio da mata , um paredão de duna de 200 metros e mais uma caminhada de dois mil metros pela areia para chegar às lagoas formadas no meio das dunas. Mas a paisagem vale a pena.

Na maior parte do tempo fiquei pela São Luís de Josué Montello e do Damião. Rua da Inveja, da Estrela, Rua do Sol, do Mocambo. A capital maranhense conserva ainda hoje, num bom costume para as cidades históricas, o mesmo nome originário de suas ruas. A tradição não se perdeu em homenagens a figuras políticas passageiras. Ainda sonho em restaurarmos a nossa “Praça 13 de Maio” em Jaguarão.

Se traçássemos uma linha interligando São Luís , Ouro Preto e Jaguarão , teríamos um polígono que poderíamos denominar de Triângulo do Patrimônio Histórico Brasileiro. Três momentos históricos em três cidades diferentes .A primeira, mais antiga, século XVII, ligada ao ciclo do algodão, o "ouro branco", a segunda, século XVIII, ao ciclo da mineração, "Ouro Preto", e a terceira, mais recente, no século XIX, a fronteiriça Jaguarão, ao ciclo do charque, uma espécie de “ouro vermelho”.


Nossas potencialidades em relação ao turismo histórico são imensas assim como São Luís e Ouro Preto, que já usufruem desse legado. Resta para nós, melhor explorá-las.  

Edição de 02/09/2015 Ano VI nº 228












sexta-feira, 31 de julho de 2015

Coluna Gente Fronteiriça - Na Estrada

Por Jorge Passos

Semana passada fui a Porto Alegre levar meu neto ao aeroporto para tomar um voo à Brasília, voltando para casa depois de umas férias no inverno jaguarense com muito videogame e sessões caseiras de cinema . Apesar da crise tão propalada diuturnamente pelos telejornais e grande imprensa, estrada com grande movimento de caminhões, automóveis e o Salgado Filho lotado de passageiros. Nesse trajeto de Jaguarão a Porto Alegre todo viajante pode constatar, se não tiver a visão embotada pelo sectarismo, como progredimos nestes últimos 12 anos. Obras por todo lado, Duplicação da BR 116 avançando, trevos de acesso a Pelotas sendo concluídos, na chegada à capital, a flamante rodovia do Parque, no aeroporto, obras de ampliação do terminal, Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) funcionando com ligação ao metrô. A nova ponte do Guaíba já em inicio de construção. Isso sem falar no que passamos ao largo pelo caminho, Estaleiro Naval de Rio Grande, Parque Eólico em Santa Vitória, o maior da América Latina.

Sempre quando passo na BR 116 por Barra do Ribeiro, redobro a atenção no volante. Recordo o grave acidente envolvendo o vice prefeito Lisandro Lenz e o motorista da Prefeitura, Berdía Porciúncula. Por coincidência , estava viajando na mesma data de julho em que há dois anos ocorreu o fato que deixou a comunidade jaguarense muito consternada. Por sorte, e também , com muita determinação e garra, Lisandro e Berdia conseguiram superar o acontecimento. Lisando Lenz com certeza, tem sido uma das pessoas mais dedicadas e competentes do executivo e com suas virtudes de lealdade e liderança, tem dignificado a política como exercício do trabalho em prol da cidade.

Ecosul efetua recuperação do acostamento na BR116
Diariamente me desloco pela BR em direção ao Porto Seco, local onde trabalho. Vou muito de bicicleta e também caminhando. Uso o carro poucas vezes. A saúde agradece! Nesses dias frios nada melhor que atividade física para melhorar a disposição. A boa notícia para quem transita por ali, é que a Ecosul está recuperando o acostamento, que receberá, segundo informações que obtive, inclusive pavimentação asfáltica, desde o viaduto na entrada da cidade até o trevo de acesso à 27 de Janeiro. A obra atende demanda realizada pela Prefeitura de Jaguarão que fez levantamento da precariedade do acostamento o que comprometia sobremaneira a segurança dos motoristas e usuários da rodovia. Creio que seria uma boa medida, assim como há em Arroio Grande, depois de concluída a recuperação, instalar controle eletrônico de velocidade no trecho.

Falando em tráfego de veículos e pessoas, a Câmara de Vereadores, numa iniciativa do vereador Aríom Moreno, está organizando a Campanha Trânsito Seguro cujo lançamento será no dia 30 de julho no auditório do Legislativo jaguarense. Participe.

Para finalizar, um exercício de memória. Alguém pode recordar alguma obra realizada pelo governo FHC em oito anos de governo?

 Edição de 29/07/2015 Ano VI nº 223



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Coluna Gente Fronteiriça - Jorge Pagliani, um italiano em Jaguarão

Por Jorge Passos

“Senhores, quando virem passar meu caixão, saibam que ali vai um homem contrariado”. Esta frase ouvi pela primeira vez proferida pelo Seu Jorge Pagliani há uns vinte anos, quando estávamos acompanhando um amigo comum em sua última jornada. Não sei se o Seu Jorge cumpriu o prometido, mas pela sua vida exemplar como pai de família e cidadão, com 102 anos bem vividos, diria que neste sábado, 30 de maio de 2015, quando do seu sepultamento nas Irmandades, ali ia um homem plenamente realizado.

Italiano de Módena, Jorge Pagliani veio para o Brasil em 1926, adolescente de 13 anos. Creio que seu destino, Jaguarão, tenha sido fortemente influenciado pela presença, nesta cidade, do seu tio, Padre Humberto Pagliani, que já estava aqui radicado desde 1915. 

Padre Humberto fazia parte da Congregação de São José, de origem italiana, fundada por São Leonardo Murialdo, em Turim, no ano de 1873. A Escola Agrícola da Quinta no Rio Grande, em 1915, convida o Padre Pagliani, que era diretor da Escola Agrícola Industrial na Líbia, África, para dirigir o seu estabelecimento dedicado à educação de crianças órfãs e carentes. Depois de alguns meses, os Josefinos transladam-se para Jaguarão, onde constituem a Sociedade Civil “Instituto Leonardo Murialdo”. O Padre Pagliani faleceu em 1932, em Jaguarão, e tinha fama de santo. Como legado, deixou o educandário que hoje ainda leva seu nome.

Patronato São José - Jaguarão - 1916

Dessa devoção a São José, creio que todos os Pagliani comungam ainda. Como não associar o nome Pagliani à famosa Confeitaria que leva o nome do Santo, pai e protetor da Sagrada Família? Quando falamos do patriarca Jorge Pagliani, também associamos valores e atividades que marcaram sua existência: família, religiosidade, trabalho como confeiteiro de mão cheia, músico, clarinetista na orquestra do Maestro Raffo, compositor parceiro do Professor Roncato e da Professora Verdina, membro assíduo do Coral Municipal, que hoje leva seu nome, e uma paixão que desfrutava com os amigos, o xadrez.

esq.a dir:Cleber Domingues, Ángel Antunes, Vilmar Rienzo, Aldo Pagliani, Jorge Pagliani, J. Passos  

Com o fratello Jorge, como às vezes nos tratávamos, aprendi a admirar seu constante bom humor e camaradagem nos torneios de xadrez e também como colega nos Corais do Maestro Stefano Roncato e depois, da Professora Verdina. Nunca o vi perder a calma ou alterar o tom a não ser para cantar, na sua voz afinada e grave de barítono. Apesar de italiano, diria que o temperamento do Don Giorgio era muito Zen, talvez residindo aí, o segredo de sua longevidade. 
 
Escrevendo sobre essas figuras ilustres da família Pagliani em Jaguarão, observo que é pouco estudada a presença da imigração italiana em nossa cidade e na própria fronteira. Quem não se lembra do Hotel Italiano em Rio Branco? Desfilam na minha memória os nomes Rossi, Paganini, Roncato, Ricordi, Pagliani, Meroni... 

1968 - Departamento de Xadrez na antiga Sociedade Ítalo Brasileira - Jorge Pagliani (centro)

Recordo o prédio da Rua Quinze onde estava sediada a Sociedade Ítalo Brasileira Giuseppe Garibaldi e que, em 1942, diante da proibição de qualquer manifestação cultural italiana após o Brasil declarar guerra contra a Itália, foi doado ao Esporte Clube Cruzeiro. Ali funcionou durante muitos anos o departamento de Xadrez, local em que comecei a jogar com os irmãos Jorge e Aldo Pagliani e várias figuras da velha guarda do Xadrez Jaguarense, Rodolfo Meroni, Carlos Eugênio Azambuja, Valmório, Dr Cassuriaga, Álvaro Lopes, entre outros.

Nesta semana em que os católicos celebram Corpus Christi, festa de tradição, patrimônio cultural de nossa cidade, com o artesanal tapete de flores na rua General Osório, ligando a Matriz do Divino à Igreja Imaculada Conceição numa passarela de fé, certamente a comunidade jaguarense reconhecida pelo seu exemplo de vida, elevará uma prece ao amigo Jorge Pagliani. 
 
Resta in Pace Amico Giorgio!
 

Prédio da Sociedade Ítalo Brasileira Giuseppe Garibaldi - Rua XV de Novembro - Jaguarão


Detalhe da Fachada com logotipo
 Edição de 03/06/2015 Ano VI nº 215




domingo, 24 de maio de 2015

Coluna Gente Fronteiriça - Voluntários da Pátria de Jaguarão




Por Jorge Passos

Damião; pardo; desta Província; 20; Sr. Ramão Francisco de Lemos; data da concessão 08-07-1867; data registro 09-07-1867 (Livro 3, p. 33r). Descrição: A carta foi concedida “para que sirva como substituto de meu filho João Nepuceno de Lemos, pelo tempo de 9 anos, em um dos corpos de 1ª Linha do Exército que lhe for designado conforme é concedido por Lei”. O referido senhor pediu a seu filho João Nepuceno Lemos que a assinasse a rogo. 
Esta é uma das Cartas de alforria que consta dos Documentos da Escravidão, pesquisa com Catálogo Seletivo De Cartas De Liberdade realizada no Acervo dos Tabelionatos de municípios do interior do Rio Grande do Sul pela APERS , na parte que se relaciona ao município de Jaguarão. Como se vê, trata-se de concessão de liberdade ao cativo com a condição deste, substituir o filho do Senhor como voluntário na Guerra do Paraguai.
“La Guerra Grande” ou “Guerra Maldita” como ficou conhecido o maior conflito ocorrido na história da América do Sul cumpriu em 2014, 150 anos. Conforme o historiador Mário Maestri, a guerra do Paraguai, apesar da sua importância, é semi-desconhecida no Brasil e pouco abordada pela nossa historiografia tradicional. Em artigo publicado recentemente, o Professor da UPF afirma que “o conflito foi deflagrado pela invasão do Uruguai pelo Império do Brasil, sem declaração de guerra, em outubro de 1864, para manter direitos semi-coloniais impostos quando de invasão anterior, em 1851! Agressão exigida pelos estancieiros sulinos, general Netto à cabeça, que mantinham a escravidão no norte do Uruguai que dominavam, apesar de abolida naquele país em 1842-46!” . Jaguarão foi diretamente atingida por esses acontecimentos no 27 de janeiro de 1865, quando da invasão dos blancos à nossa cidade, evento que nos rendeu o epíteto de heroica.
No Brasil, depois de um inicio de entusiasmo popular, criou-se o Corpo de Voluntários da Pátria, para canalizar o sentimento patriótico dos que desejavam lutar pelo País. Porém, logo escassearam os alistamentos e o recrutamento começou a ser forçado. A substituição do recrutado ou designado para a guerra, por um escravo, era uma das maneiras de fugir do sangrento conflito. Os nossos antepassados jaguarenses não hesitaram em recorrer a esse privilégio. Afinal, segundo o escritor Joaquim Manoel de Macedo, líder da facção avançada do Partido Liberal, "os brasileiros não se alistavam voluntariamente por acreditarem que só os pobres lutavam".
Fazendo justiça aos homens de Jaguarão que , provavelmente com sua morte nos campos de batalha lutando pelo Brasil, conquistaram a liberdade, coletei no catálogo acima citado os nomes dos escravos que publico a seguir, ressaltados em negrito, com os respectivos senhores e ou parentes destes, substituídos. Como gaúchos que somos e por exaltar nossas façanhas servindo de modelo a toda Terra, nada mais justo que permitir à comunidade negra de nossa cidade, o reconhecimento a seus antepassados, aos que realmente foram para a frente de combate , os nossos Voluntários da Pátria.
Faustino José Gonçalves ; Sr. Honório José Gonçalves 
Damásio Francisco de Brum ; Sr. Manoel Francisco de Brum 
Jacinto Leodoro; Sr. Evaristo José Gonçalves, em lugar do filho Evaristo José Gonçalves Júnior 
Benedito José Nobre ; Sr. Ismael José Nobre
Paulo Inácio Rodrigues; Sra. Justa Dias Rodrigues, substituindo seu filho Lino Inácio Rodrigues
Tomás de Melo em lugar de Manoel Cândido de Melo, filho do Senhor 
José Maria Dias ; Sra. Maria Inácia Rodrigues Dias, em lugar do filho Manoel Inácio Dias
Lucas Caetano dos Santos; Sr. Manoel Corcino dos Santos 
Paulo Corrêa da Silva ; Sr. João Jacinto Corrêa da Silva 
Eleutério Porto ; Sr. Joaquim Teixeira Porto, substituindo o filho Manoel Joaquim Porto
Adão Cunha; Sr. Basílio Evaristo, em lugar do enteado Fortunato Antônio da Cunha
Estevão ; Sr. Tomás de Farias Santos, no lugar do sobrinho Luís Gidião de Farias
Narciso; Sra. Maria Dias Terra, em lugar do filho Felício Francisco Terra
Marcelino; Sra. Joaquina Maria da Conceição, em lugar de Antônio Vieira de Freitas
Manoel; Sr. Jacinto Corrêa de Araújo
Benedito; Sr. Clarimundo Álvaro de Melo, em lugar do filho Loregildo Pereira de Melo
Damião; Sr. Ramão Francisco de Lemos, substituindo o filho João Nepuceno de Lemos
Elias ;Sr. Angelino Dutra da Silveira, em lugar do filho Leandro Dutra da Silveira
Inácio; Sr. Antônio Joaquim Lima
[sem nome] ;Sr. Joaquim Soares de Souza.
Os escravos quando da libertação ou alforria, geralmente adotavam o sobrenome dos seus antigos senhores. Não adicionei à lista, os escravos da Freguesia de São João Batista do Herval e da Freguesia de Nossa Senhora das Graças de Arroio Grande que, à época, pertenciam a Jaguarão. Para se ter uma ideia da importância do escravagismo por aqui, Jaguarão em 1859 tinha 5.056 escravos, só perdendo em número, para a capital , Porto Alegre, que dispunha de 8.417 escravos.
 
Retirado de "Comprando e vendendo escravos na fronteira" de Jônatas Caratti
 
CLIQUE AQUI    Para consultar a íntegra da Pesquisa sobre as Cartas de liberdade do RS 
 
A legislação da guerra, ainda, permitiu um a outra forma de enviar para as fileiras do Exercito escravos: o substituto. Pela lei n° 1220. de 20 de julho de 1864, ainda em vigor durante a guerra, se permitia aos recrutados e voluntários a isenção militar por substituição de indivíduos idôneos para o mesmo serviço, faculdade que igualmente foi concedida aos guardas nacionais tanto pelo artigo 126 da Lei n. 602 de 19 de setembro de 1850. como pelo Decreto n° 3513 de 12 de setembro de 1865 - OS [IN] VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA NA GUERRA DO PARAGUAI - dissertação de Marcelo Santos Rodrigues da UFBA.
  
Edição de 20/05/2015 Ano VI nº 213
 
 
 

domingo, 3 de maio de 2015

Rio Branco escolhe novo alcalde em 10 de maio

Yamila e Fratti, Botana e Morel. Aqui pode estar  o futuro intendente de Cerro Largo 
e o ocupante da Alcaldia de Rio Branco
Por Jorge Passos

A Fronteira volta a vivenciar um clima eleitoral que se prognostica acirrado na vizinha cidade de Rio Branco e também em Jaguarão, já que é habitual a presença de “dobles chapas”, moradores de Jaguarão que também são cidadãos uruguaios e eleitores do outro lado. Acontece no domingo, 10 de maio, eleições Departamentais e Municipais nos 19 departamentos do Uruguai. Em cada Departamento será eleito o Intendente (primeira figura do executivo departamental) e 31 edis e nos municípios, um alcalde e quatro conselheiros. O Uruguai adota o sistema de voto em Listas e o Alcalde, similar à figura no nosso prefeito, será o candidato da lista mais votada do Partido que obtiver maior número de votos somadas todas as listas da sua legenda dentro da circunscrição Municipal.

Em Cerro Largo, Departamento uruguaio com a capital Melo e da qual faz parte o município de Rio Branco, esta eleição terá um caráter especial. Depois das eleições de outubro passado quando o Frente Amplio, com quatro mil votos de diferença, conquistou sua primeira vitória na história do Departamento, tradicionalmente um reduto do Partido Nacional (Blancos), todos os olhares se voltam para esta região do país, El “Uruguay Profundo”, como dizem os montevideanos sobre estas zonas agropastoris mais afastadas do centro econômico mais desenvolvido.

Pelo Partido Nacional (blancos) o atual intendente, Sergio Botana, (Alianza Nacional), tenta a reeleição. Pelo mesma legenda, concorrem Milton da Silva (Dignidad Nacional) e Nelson Cuadrado do setor local "Águila Blanca del Cordobés". Pelo Frente Amplio serão candidatos à intendencia de Cerro Largo, Alfredo “Canário” Fratti (Espacio 609) Yerú Pardiñas (Partido Socialista) e Pablo Guarino (Frente Liber Seregni). Pelo Partido Colorado, a única candidata será a quincista Walkiria Olano. Ainda concorre à intendente o Professor Paul Saravia, do Partido Unidad Popular.

As últimas pesquisas de abril indicam uma polarização entre o partido de esquerda, ganhador das eleições nacionais de outubro com Tabaré Vasquez presidente, o Frente Amplio, 44% das intenções de voto e os Blancos do Partido Nacional, 45%. Os candidatos que tem a preferencia do eleitorado são Sergio Botana pelo PN e Alfredo Fratti do FA.

No município de Rio Branco, o atual Alcalde, Robert Pereira, do Partido colorado, resolveu não concorrer à reeleição. O que sem dúvida, deixa seu partido com poucas chances no pleito municipal. A votação dos Colorados tem diminuído a cada eleição no Uruguai o que coloca em risco o futuro da agremiação como terceira força do País. O único candidato à Alcaldia de Rio Branco pelos Colorados é Juan Lay. Já pelo Partido Nacional, apresentam-se candidatos a alcalde, dentre outros, Hector Mendez, Júlio Wasen, Cristian Morel e Marcos Lopez. Pelo Frente Amplio, os mais cotados candidatos ao primeiro cargo do Executivo são Sandro Telis, Yamila Bondad, Maria Júlia de los Angeles, Geener Amaral.

A escassa destinação de recursos do orçamento departamental para a cidade de Rio Branco tem sido um dos temas preferidos da oposição Frente Amplista ao governo Botana e anteriores governos blancos no Departamento. A descentralização, o maior investimento em infraestrutura e urbanização, maior atenção ao Balneário da Lagoa Mirim, são outros pontos muito debatidos na atual campanha.
Nos últimos dias o apoio de um tradicional líder Blanco, o Dr Mauro Suarez, aos candidatos do Frente Amplio, Yamila Bondad para alcalde e Alfredo Fratti à intendente, repercutiu muito no meio político local, podendo favorecer decisivamente uma vitória FrenteAmplista , o que seria um feito histórico para o Partido do ex - Presidente Pepe Mujica, para quem, ganhar em Cerro Largo, “seria una perlita”.

Edição de 29/04/2015 Ano VI nº 210
 


 




quinta-feira, 23 de abril de 2015

Coluna Gente Fronteiriça - O Cavaleiro da Flor

Por Jorge Passos

De Camões a Fernando Pessoa, nós somos resultado dessa peregrinação longínqua de combates e de glórias, de afirmação do bem contra o mal.”. E mesmo na era cibernética, No mundo digital, no holograma, ali está São Jorge, triunfante, lá na frente de todos nós! É a pipoca da pororoca da imaginação!”  

Estes versos fazem parte da música Líder dos Templários dos quatro Jorges, Vercilo, Mautner, Aragão, Benjor. 

Como definir melhor esta figura do Santo Protetor, Oxóssi da mata na mitologia de matriz africana, presente na vida do povo brasileiro, acima das religiões, imerso em seu imaginário? “E todo imaginário tem valor, e pode transformar este cenário, a mente criadora é um dom maior, daqueles que são revolucionários.”

Mesmo aqueles mais críticos hão de concordar que o cenário de nossa cidade foi transformado nos últimos dez anos. Em fevereiro, fui convidado por uma amiga, formanda em Letras da Unipampa, para cerimônia de colação de Grau que ocorreu no Ginásio da Integração. Também recebiam o tão sonhado diploma alunos dos cursos de História, Pedagogia e Turismo. No recinto completamente lotado, formandos de toda a parte do estado e alguns de fora do RS com seus familiares e amigos. Quem imaginaria isso em Jaguarão? O Projeto de Expansão e Interiorização do Ensino Superior implantado por Lula, continuado e fortalecido pela presidenta Dilma ampliou o acesso à Universidade. Podemos considerar que Jaguarão se transformou num Polo Educacional, com a Unipampa e a implantação do Ensino Técnico Federal por meio do IFSul. 
 
Num estudo, recentemente publicado pelo Senado Federal, “A despesa federal em educação: 2004-2014” mostra que os recursos aplicados na área aumentaram 285% nos últimos dez anos e esta é a despesa que mais cresceu no país. Claro que ainda falta maior investimento, principalmente, na valorização salarial dos professores. Situação que deve ser melhorada com os recursos advindos do Pré-Sal. 
 
A Unipampa também nos permite desfrutar da presença de professores renomados em nosso meio. No sábado assisti à magnífica palestra do especialista em Arte, professor Clóvis da Rolt, sobre o Nu na História da Arte. Foram quase três horas que passaram sem monotonia. A atividade fazia parte da programação da II Semana da Diversidade Sexual de Jaguarão, a qual teve um momento marcante, no domingo, quando do encontro da Parada LGBTTT e o desfile de Tradicionalistas na Avenida 27 de Janeiro. Dividindo o mesmo espaço num ambiente de tolerância, respeito e diversidade, palavras estas, que devemos cultuar sempre mais, se quisermos uma sociedade rumo a uma civilização mais evoluída. 
 
Escrevo na manhã ensolarada de um outono travestido de verão, neste feriado em memória a Joaquim da Silva Xavier, um brasileiro guerreiro que fez história, herói da Inconfidência Mineira, o Tiradentes. Sacrificado por defender o país da exploração colonial. A sua luta pela independência e autonomia do Brasil continua. Apesar dos “Silvérios dos Reis” entreguistas, avançamos em conjunto com a América Latina, cada vez mais soberanos frente ao Império do Norte.

Até aonde irá esta seca? Dois fenômenos me intrigam. Nunca vi tanto aguapé no rio Jaguarão e proliferação de grilos. Notaram? Salve Jorge!


Edição de 22/04/2015 Ano VI nº 209

 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Coluna Gente Fronteiriça - Mar de Gente


Por Jorge Passos

Mar de gente. Foi essa a expressão usada por um morador da General Osório na janela do seu camarote privilegiado para assistir o Circuito dos Trios Elétricos do Carnaval 2015. Sob o olhar imponente da Torre da Minervina, mar de gente também era a cena que se via na confluência da Deus Dias com a  Avenida 27 (foto). Desse ponto foi que acompanhei a maior parte da folia.

Houve espaço para todos,  apesar da multidão. Nos camarotes, nas janelas, nas calçadas, nos ombros dos pais, nos Trios, nos Blocos, nas Escolas de Samba, nas arquibancadas,  a maior festa popular do Brasil tinha palco magnífico em Jaguarão. Tirando-se a fatalidade que ocorreu na noite de sábado e aquela briga ocorrida entre grupos rivais de bairros da cidade na quinta-feira, a opinião geral é de que tivemos um grande carnaval.

Estávamos presentes quando silenciou repentinamente a festança devido ao acidente. O que houve , se perguntaram todos, quando correu a noticia do acidente fatal envolvendo um Trio Elétrico. Foi comoção geral. Estava indo pra casa quando dois rapazes , recém-chegados de carro de uma cidade vizinha, nos perguntaram: “já terminou? Nos disseram que o carnaval daqui ia até as 5 da manhã!” Expliquei-lhes o acontecido, motivando a suspensão.

No domingo pela manhã andei pela cidade. Não se sabia o que ia acontecer. Alguns diziam que o carnaval seria suspenso. Pensei naquelas milhares de pessoas que tinham se deslocado para cá, pousadas cheias. O que fariam? Mais tarde, soube da reunião na prefeitura convocada pela organização. Participavam a Liga de Carnaval, os trios, lideres de blocos, BM,  presidentes de Escolas. Até os ambulantes foram chamados. Há que se ressaltar a maturidade e a correção das decisões tomadas. Decidiu-se pela continuidade da programação. Um evento desse porte não poderia ser paralisado sob pena de termos consequências e perdas irreparáveis, além do perigo de termos uma multidão fazendo um carnaval a revelia, sem controle. 

Já de noite, a festa continuando, mar de gente tomando as ruas novamente, ouço o Fantástico da Globo dizendo que o Carnaval de Jaguarão tinha sido suspenso por tempo indeterminado. Como sempre, a grande mídia desinforma, manipula e distorce. Não há desculpa para tanta distorção. Nos tempos de hoje com as noticias circulando à velocidade da luz, é inadmissível esse erro. Má-fé? Na afiliada RBS, o sensacionalismo era o tom da cobertura. Não importava estarmos no melhor carnaval de rua do estado, um dos melhores do Brasil. Jaguarão duplica sua população neste evento. Nem Salvador faz esse feito! E a mídia da RBS só focada no acidente trágico. Tragédia maior não será a Prefeitura de Pelotas, num verdadeiro atestado de incompetência,  não ter conseguido realizar o Carnaval?

Na segunda feira saímos no maior Trio. A sensação era estar em outra cidade. Naquelas miles de pessoas só reconheci uma de Jaguarão. A equipe de segurança nos trios era muito boa. Por falar nisso, quantas centenas de empregos temporários não são formados durante o evento, gerando renda extra e divisas para a cidade? Notou-se apenas um deficit no efetivo da BM. Sem dúvida, resultado  da gestão do  governo Sartori, que cortou diárias e horas extras dos brigadianos refletindo-se seriamente na segurança pública.

Para finalizar, resta a certeza de que o nosso Carnaval de Rua consolida-se como grande Festa Popular que a comunidade de Jaguarão sente com orgulho como sua.

Edição de 26/02/2015 Ano IV nº 201



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Coluna Gente Fronteiriça - Habemus Cine



Por Jorge Passos

Estes dias, fiquei impressionado com um vídeo que vi , produção dos alunos de Produção e Política Cultural  da Unipampa. Ana Barbara Klenk Serra, Leandro Vieira de Amorim, Luma Reis Ferreira, Marcela Hernandes Pedreira, Marjorie Mendonça C. Fernandes e Magno da Costa Paim realizam um projeto de um curta-metragem de ficção que será realizado em Jaguarão. O filme acompanha a vida e rotina de Lóri (24 anos) uma mulher que ao se descobrir grávida desenvolve os cinco estágios da Morte/Luto e não consegue compartilhar o segredo com ninguém. Na construção da personagem elaboraram um ensaio de aproximadamente 5 minutos e  que está disponível no You Tube, busquem pelo nome “Pesquisa Estética- Fluxo”.

Provoquei o confrade Sérgio Christino, colaborador desta coluna, meu filósofo particular , estudioso de Hegel, e meu parceiro  fundamental na edição do Barqueiro do Jaguarão, para se manifestar sobre o referido trabalho dos meninos da Unipampa. Compartilho com vocês, caros leitores amantes do cinema, suas impressões: 

"Vendo este ensaio/pesquisa lembro de uma dificuldade apontada em um documentário que assiti en passant outro dia no Arte 1. O trabalho do crítico de cinema traz esta armadilha que eu só tinha percebido ao comentar "O poeta é o caranguejo que pulou do balde".

De fato a dificuldade está em ter de expressar algo, usando uma linguagem diferente daquela a respeito da qual se quer expressar este algo. Há coisas que são da linguagem visual e ponto. Não adianta você querer descrever o que sente quando vê um vídeo em que aparecem os ângulos formados pelos pingos de chuva rebatidos pelo teto de um automóvel, muito menos você escrever a respeito de como são estes-pingos-estes-ângulos-este-teto-de-carro-esta-chuva-esta-pessoa que-experimenta-o-delírio-visual.

Como ensaio/pesquisa ele - Fluxo - é tocante, mesmo que não se saiba que tem um argumento (inquietaçao da gravidez) e mesmo enfrentando esta dificuldade do crítico que menciono, o impacto é o de um aquecimento ideológico (no bom sentido), para captar a mulher/natural em seu isomorfismo gestáltico: útero-espaço-dentro-fora.

O que está dentro é o mesmo que está fora, ou seja a vida. Esta coisa do espaço e da natura - mater/madeira/maternidade/mãe/árvores em bosque, são muito tocantes.

O espaço está duplamente significado, certo? Dá pra ver nas tomadas junto à natureza e nas tomadas de signos urbanos - quer cena mais aberta e mais fechada ao mesmo tempo que aquela do Bloco do Janjão. Toda a abertura de movimento e sons da festa de rua e a expressão da personagem - que carrega em sua histriônica expressão facial toda a clausura, toda a expectativa enigmática que nada revela, apenas sugere.

Tem, ainda, uma coisa de ar, de respiração, de pulmão, de estrutura para conter o ar que paira e que não sei explicar!!!!!"

Edição de 11/02/2015 Ano IV nº200



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Coluna Gente Fronteiriça - Levanta-te!


Por Jorge Passos

Essa charge que circula nas redes poderia continuar com o cidadão levantando-se da sua poltrona e saindo de casa para dar uma boa caminhada. Teria completado de forma magnífica a ação de desligar a TV. O sedentarismo, aliado a essa passividade diante de uma telinha da Globo, faz muito mal à saúde. Estudos de especialistas indicam que ficar sentado é muito prejudicial ao nosso organismo. Muitas enfermidades estão associadas a esse nosso mau hábito. Dizem até que “sentar é o novo cigarro”. Doenças crônicas, redução da expectativa de vida, obesidade, entre outros males. Resumindo, quem fica muito tempo sentado, morre mais cedo.

Contudo, não é fácil sair dessa armadilha. Eu faço o que posso. Ultimamente, deixei um pouco de lado as caminhadas e adotei o ciclismo. Sempre gostei de pedalar. A primeira experiência foi num triciclo que era do meu irmão mais velho. Mas eu incomodava tanto para andar que ele desistiu e me transferiu o bem. Depois, o próximo passo, aprender a andar sem auxílio de rodas sobressalentes, numa grande bicicleta (aos meus olhos de criança) que era de uso da Casa Azpiroz. Baita desafio. Foram alguns tombos, mas venci. Um povo que venera a bicicleta, sem dúvida, é o uruguaio. Creio que uma das poucas categorias olímpicas em que o Uruguai sempre tem representante, além do futebol, é o ciclismo.

Um dos meus passeios preferidos é atravessar a ponte Mauá de bicicleta e ir até as barrancas do rio, do lado de allá, nadar um pouco nas águas do Jaguarão. Falando em Ponte, ficou excelente a iluminação com a troca de lâmpadas efetuada. Está faltando agora uma boa limpeza nos trilhos e retirada de areia nos costados da pista. Não só pela estética, mas também pela segurança dos ciclistas e motociclistas. Creio que a responsabilidade é do DNIT que deveria ser acionado ou da Ecosul, concessionária da BR 116 , trecho Pelotas –Jaguarão, da qual a Ponte faz parte. Não tenho certeza.

Para terminar, nada melhor do que as palavras do Nazareno a Lázaro: “Levanta-te e anda!”

Edição de 28/01/2015 - Ano IV nº 198





quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Coluna Gente Fronteiriça: Florêncio, Vigário pelos quatro costados

Dedico a coluna desta semana a um grande amigo de meu pai e minha família, meu Padrinho, Padre Florêncio Lunelli. 

Para regozijo da comunidade de Jaguarão, querido e admirado por todos,  ele retornou à nossa cidade para fixar moradia na Casa Paroquial da Matriz do Divino. Recupera-se com êxito de alguns problemas de saúde. Nada demais, velhice, disse-me ele.  

Há alguns dias, manuseava seu livro, “Memórias de um vigário”  editado em 1990 e planejei publicar um de seus contos aqui no Gente Fronteriça. E nada melhor do que faze-lo agora, quando está aqui conosco, na terra que tanto ama. 

Reproduzo as palavras do saudoso Cura Vicente  Ramos no prefácio do citado livro, para definir o Padre Florencio. “Es vigário por los cuatro costados. Ser vigário no es una profesión, es una vida, es un sublime destino y un verdadero desafío. Quizá una de las vocaciones más comprometidas y profundamente humanas, porque el vigário no tiene horarios, no se aposenta, y todos sus minutos están envueltos y dominados por su sublime misión”.    

Vamos ao causo escolhido,  o qual revela um dos seus grandes divertimentos, a pescaria, e que tem por título: 

Põe Cachorro Nisso!

Um dos fracos do vigário é a pescaria. Se os deveres lhe permitissem, iria pescar pela manhã e, se o convidassem à tardinha, ou à noite, lá estaria correndo de novo.

Com seu companheiro Joãozinho, de mais  de oitenta anos, hoje falecido, lá foi ele para as bandas do Juncal, no açude de um grande amigo. Com a devida licença e prazer do dono, se instalaram  nas suas margens. Lançadas as linhas, presas aos guizos e sininhos que indicavam as primeiras “mamadas” do peixe e fazem o pescador atento à disparada para a fisgada, foram surpreendidos pela chegada do proprietário, seu Edgard. Trazia-lhes além da costela, o assador. Que cavalheirismo, delicadeza e amizade.

É claro que, enquanto assava a apetitosa carne de ovelha o seu Xisto (este o nome do empregado) mandava os seus tragos de caipirinha. Faz parte do ritual.

E entre os “causos” que se contavam, narrou: “Certa feita, lá pelas alturas de São Diogo (fronteira do Uruguai com Herval) apareceu tanto cachorro comedor de ovelhas, que, escondido num mato, matei pra lá de cem”! Foi então que o seu Joãozinho não se conteve e numa risada gostosa que quebrou as trevas da noite, arrematava: “eta mundo velho, bota cachorro nisso”!

Sempre se ouve contar que caçador e pescador são mentirosos. Não é que mintam. É que, “quem conta um conto, sempre acrescenta um ponto”. Daí, porque tanto os números, quanto as medidas e os tamanhos aumentam.

Aliás, quem passaria uma noite, às vezes em meio a uma mosquitama furiosa, inconveniente e perseverante, sem contar as suas estórias, espantando o sono e esperando o tilintar das campainhas, anunciando que um jundiá ou uma traíra estão querendo disparar?  

Jorge Passos   

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 14/01/2015