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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

SONHO DE EDUCADOR por Jônatas Caratti *

Por trás de toda palavra há um conceito. Por trás da palavra “professor (a)”, também. Remete a uma educação formal e tradicional que não compartilho. Uma (des) educação acéfala, que coloca o professor num pedestal de soberba e que deixa o aluno mergulhado em passividade e mediocridade. Não existe relação de ensino-aprendizagem nessa (pseudo) interação, pois um ensina e o outro aprende. O mestre nunca poderá ser aluno e o aluno nunca poderá ensinar nada ao seu mestre. Por isso, prefiro me identificar como “educador (a)”.


O educador não fica preso nas quatro paredes da sala de aula. Não fica preso ao uso do quadro-negro, nem a uma relação de autoritarismo e submissão. Ensinar e aprender são atos de amor, de alegria, que abarcam toda nossa existência e que, portanto, não se limitam ao período escolar (final do Ensino Básico ou mesmo do Ensino Superior). O educador acredita em sua missão, sabe da importância de seu trabalho, mas é consciente que nem seu ensino, nem a escola que trabalha poderão, por si só, transformar a sociedade. O educador prefere a construção do saber à cópia e à reprodução. Refuta o conformismo, pois sempre existe algo que precisa ser mudado. E luta por isso até o fim – o fim de suas forças, de sua vida.

Há poucos dias me mudei, juntamente com minha esposa, para esta querida cidade. Trabalho na Universidade Federal do Pampa desde 2013, mas somente agora segui meu coração e vim para estes pagos. Há tempo que amo este lugar, as pessoas que aqui habitam, as escolas, educadores e educandos que merecem toda atenção do Estado, e por consequência, também da universidade que aqui chegou. Meu sonho é que a concepção de educação transformadora seja compreendida por todos os jaguarenses como uma necessidade. Digo necessidade, pois só há sentido em educar-se quando houver consciência. Vivemos em tempo de crise. Crise não só da escola, mas da sociedade contemporânea. E essa crise se dá principalmente porque vivemos um novo tempo, em que as instituições precisam ser repensadas e renovadas.

Creio que ninguém discorda da importância da escola e da educação. Porém, todos aqueles que se envolvem com educação – e na minha visão, todos nós – percebem o fracasso da escola. E não é o fracasso do educador, da gestão, dos educandos ou de seus pais. É o fracasso da forma como a escola se apresenta nos dias de hoje. Que escola nossos filhos e filhas precisam? Qual a situação deles e qual o sonho que temos para eles? Ou melhor, quais os sonhos dos educandos? Será que temos refletido e feito perguntas antes de irmos ao encontro de respostas que o mercado e o capitalismo nos impõem? Afinal, educação não é mercadoria. O Brasil, enquanto nação, ainda engatinha no quesito educação. Somente em 1996 a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) tornou obrigatório aos pais que matriculassem seus filhos nas escolas. Ou seja, até pouco tempo estudava quem o pai deixava. E pior, os pais que não entendiam a importância da escola (ou não tinham consciência), já colocavam uma pedra na trajetória de vida de seus filhos e filhas.

É por isso que sou um sonhador. Mesmo que o investimento do Estado em educação seja pequeno. Mesmo que os educadores não tenham acesso fácil a materiais, a jornais, a livros, revistas e cursos de formação que permitam a construção de sua autoconsciência. Mesmo que haja falta de estrutura, de material de consumo (folhas, canetas, apagador, etc) e de salários dignos. Mesmo que aparentemente não exista esperança. Mesmo assim, acredito na educação. Na educação transformadora e problematizadora. Na educação que eleva o ser humano, educação para além do capital, que não forma somente para o mercado de trabalho. Educação preocupada com o ser humano como um todo. Convido a todos educadores e educadoras – mesmo os que deixaram, por um momento, de sonhar – que não desistam de sua função social. Que nos reunamos e discutamos formas de melhorar a educação, especificamente, de nossa amada Jaguarão. Que nossos sonhos se tornem os sonhos de nossos filhos e filhas. Uma educação de qualidade para todos nós!

*Professor do curso de História da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)

Edição de 30/09/2015 Ano VI nº 232







sábado, 4 de julho de 2015

O QUE ESPERAMOS DA PÁTRIA EDUCADORA?

Por Jônatas Marques Caratti*

Os slogans na política são um fenômeno antigo. Getúlio Vargas iniciava seus discursos anunciando: Trabalhadores do Brasil! Na época da ditadura, Médici optou pelo “ame-o ou deixe-o”, demonstrando o autoritarismo de seu governo. Mais recentemente, Fernando Henrique Cardoso escolheu a frase “Trabalhando por todo o Brasil”. Lula usou “Brasil, um país de todos” e Dilma caracterizou seu primeiro mandato com “País rico é um país sem pobreza”. A nova logomarca do governo é “Brasil, pátria educadora”.

Se preocupar com a educação não é algo novo em nosso país. Enquanto apenas alguns tinham acesso aos estudos na jovem República, operários e a comunidade negra lutavam pelo acesso à educação. E isso foi lá no início do século XX, quando nem ministério havia. Somente em 1930 o Ministério da Educação foi criado e em 1934 Vargas solicitou as Leis de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Apenas em 1961, com João Goulart, a primeira LDB foi estruturada. E de lá para cá mais duas já vieram (a de 1971 e a atual, 1996). Já teve primário, ginásio, científico, clássico; também primeiro, segundo e terceiro grau. E agora estamos em ensino fundamental, médio e superior. O que se percebe é que tudo que se refere à educação parece demorado e tardio. E quando muda, parece que não de forma substancial.

Neste contexto, o governo apresenta (de forma preliminar) o documento “Pátria educadora”. E o que este documento mostra não é segredo pra ninguém: há falta de motivação entre os alunos para aprender, há evasão escolar, há repetência. A educação oferecida é atrasada e não foi reapropriada para nossa realidade. O “enciclopedismo” reina no Brasil desde Cabral. O que esperamos da Pátria Educadora? Que haja uma ampla e apropriada reflexão sobre o tipo de ensino que queremos (não somente preocupado com o mercado de trabalho, mas também com a cidadania). Assim, talvez não haja necessidade que os pais recorram para o homeschooling. É claro, se o Estado se posicionar e lutar por educação pública de qualidade.

* Professor universitário e historiador

Edição de 02/07/2015 Ano VI nº 219








sábado, 30 de maio de 2015

A EDUCAÇÃO É POLÍTICA

por Jônatas Marques Caratti*

O projeto de lei 867/2015 do deputado Izalci Ferreira tem dado o que falar. Seu projeto pretende incluir à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional o “Programa Escola Sem Partido”. O objetivo é proibir a doutrinação ideológica nas salas de aula. De forma mais incisiva um grupo auto-intitulado “Dogma” tem defendido abertamente a volta do ensino tradicional às escolas. Isso é preocupante. Principalmente, porque vai contra todo um esforço realizado nas últimas décadas para tentar superar a educação alienante (que em parte, ainda permanece), e buscar um ensino mais aberto a construção do conhecimento.

Mas os defensores dessa causa esquecem uma coisa. A educação é política. Não há neutralidade. A escola e o modelo de educação atual são parte de um projeto político ideológico. Vejamos. O professor de História durante muito tempo transmitiu nomes, datas e acontecimentos aos alunos. Por quê? Porque fazia parte de uma ideologia positivista em que apenas alguns faziam parte da história. Só algumas datas e fatos eram importantes. A classe mais pobre ocupava um lugar secundário, marginal. Eles foram excluídos da história. Talvez a falta de participação política em nosso país pode ter sido herdada dessa ideologia que nos faz passar, de forma omissa, as decisões para o Estado.

Sobre educação e política, o francês Bernard Charlot afirma que “a educação transmite modelos sociais, forma a personalidade e difunde idéias políticas.” Assim, a escola colabora ou para manter o status quo da sociedade, ou para transformá-la. Professores que ensinam e alunos que aprendem? Ou queremos educadores e educandos construindo conhecimento juntos, significando o saber para além das paredes da sala de aula? Os educadores precisam de liberdade para lecionar. Ao mesmo tempo, fica a estes a responsabilidade de dar autonomia de pensamento aos educandos. A PL da Escola sem Partido nos permite um profundo debate a respeito do modelo de escola que queremos.  Sem esquecer, jamais, que isso implica no tipo de sociedade que almejamos.

*Professor Assistente do curso de História da Unipampa. 

Edição de 27/05/2015 Ano VI nº 214